Antes de tudo, este autorretrato feito em 2017 é um processo. Nessa época haviam muitas questões mal resolvidas em relação a minha fissura labiopalatina, ao meu corpo e também em relação a minha sexualidade (me entendo hoje como pessoa não binárie). Eu que fora chamado de “menino da boca rachada” na infância carregava isso comigo como um estigma, um trauma. Diariamente violentado pela imposição de padrões físicos e estéticos, julgado e questionado pela minha diferença, e pela pouca maturidade, fui atravessado por sentimentos de auto repulsa. Dentro de mim neste período havia uma guerra entre mente e coração. Enfrentei uma depressão profunda, o fim de relacionamentos, a quebra de afeto com pessoas que eu amava e sucessivamente alimentei um trauma que estava ali dentro, adormecido, e é a partir desse contexto que faço esse auto retrato. 

Agora em 2022, eu sabia que seria um desafio remexer nesses sentimentos, mas foi no trecho do texto de Sabela tão brilhantemente escrito por Conceição Evaristo, que veio a libertação. Texto este dado de presente na tamanha gentileza de Lua Cavalcante. Conceição narra essa história forte contada num primeiro ato pelas palavras de Sabela sobre ancestralidade, sobre desvios e também sobre as pessoas que a atravessam. Uma dessas pessoas é o menino-Rouxinol “o menino de lábios dilacerados. O da boca marcada por uma fenda que nascia bem abaixo de sua narina esquerda e terminava no final do queixo do lado direito de seu rosto. Fissura que mostrava uma gengiva mal-acabada de dentes falhos, minúsculos e tortos. Rouxinol, criança que, ao soltar seus primeiros balbucios, foi acusado de possuir uma fala que provinha de um mal contagioso que morava em suas entranhas. Por isso fora condenado à morte. Diziam que era preciso acabar com Rouxinol, para que nunca mais surgisse dentre eles alguém tão sem boca, tão sem lábios, tão sem fala compreensível. A mãe do menino concordou.“ (2016, pg. 71)

Quando Conceição-Sabela fala de rouxinol, é como se ela falasse diretamente comigo e de como me senti durante grande parte da minha curta existência nesse mundo de provas e expiações. Eu fui por inúmeras vezes “acusado de possuir uma fala que provinha de um mal contagioso”, eu também fui dito de alguém “tão sem boca, tão sem lábios, tão sem fala compreensível”. Mas para além disso, em algum momento vem a redenção, e num ato de amor e verdade, representado por um beijo, o menino-Rouxinol se liberta dessas amarras e encontra na sua fala, sua principal forma de existir. E aqui, olhando pra mim, vejo que a arte é a minha forma de gritar, assim como o menino-Rouxinol, gritou tão alto para salvar as pessoas de um temporal.

 
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